segunda-feira, 22 de junho de 2009

Palavras Criativas entrevista…Maria Manuel Viana (escritora)





Palavras Criativas – O que é que a escrita representa para ti?

Maria Manuel Viana -É uma pergunta que faço a mim própria muitas vezes. Não sou exactamente uma escritora, uma vez que essa não é a minha profissão, se quisermos seguir o convencionado. E, de facto, não me penso como ou enquanto escritora. Talvez pelo facto de ter sido professora de português e, fundamentalmente, de literatura portuguesa durante 34 anos, não me tenha sido tão fácil desdobrar-me, isto é, como passei a maior parte da minha vida a ensinar as palavras dos outros, nunca houve muito espaço para as minhas, desde logo por uma atitude de consciência crítica, mas também porque desde muito nova tive a sensação de que o que eu queria dizer já outros o tinham dito antes e melhor do que eu. Houve sempre da minha parte uma espécie de pudor em escrever e, sobretudo, em mostrar o que escrevia.
A leitura sempre foi muito mais importante do que a escrita. A minha vida teria sido exactamente a mesma se não tivesse escrito uma única palavra e nenhuma palavra, frase, imagem, metáfora ou parágrafo meu acrescentou o que quer que seja à literatura. É bom termos a consciência disso, mesmo quando escrevemos, mesmo quando gostamos desvairadamente do que escrevemos.
Claro que tanta lucidez, por vezes dolorosa, levará inevitavelmente à questão de por que escrevo então, mas talvez a resposta se coloque mais no quando.
Curiosamente, há poucos dias, em conversa banal, ouvi-me a mim mesma dizer: só escrevo quando estou triste. Eu não costumo dizer frases feitas, nem usar clichés, nem sequer falar muito. Sou habitualmente silenciosa e, como me sei obsessiva quando escrevo, poupo geralmente os outros à minha companhia nessas fases. Mas, mais tarde, pensando de facto na escrita dos meus 3 livros, ela correspondeu aos momentos mais difíceis da minha vida. E, ao enunciar isto, sei que não foi catártica - pelo contrário, ao contar a vida de três mulheres diferentes: Ana B., MªJoão e Isabel - foi como se eu me sentisse de repente demasiado sozinha, como se precisasse que outros que não eu soubessem aquelas estórias, como se de repente o peso fosse grande demais para mim e eu quisesse partilhá-lo. Mas eu, que até li Gide muito cedo, sei muito bem que não é com boas intenções nem com bons sentimentos que se faz boa literatura.


Palavras Criativas – Hoje ser mulher é uma ameaça ou uma oportunidade?

Maria Manuel Viana - Ser mulher nunca é uma oportunidade (excepto, naturalmente, para as oportunistas). Os números falam por si e nem me vou debruçar no que se passa no mundo: em 2008, em Portugal, 41 mulheres foram assassinadas pelos maridos ou pelos companheiros. Hoje, 22 de Junho de 2009, este número já foi ultrapassado. Ninguém mata oportunidades.

Palavras Criativas – Fala-nos da necessidade de combater a violência doméstica (ex-coordenadora do Gabinete para a Igualdade em Castelo Branco)

Maria Manuel Viana - A violência é a principal causa de morte das mulheres entre os 20 e os 55 anos (mais do que os acidentes, o cancro, a guerra). É socialmente transversal, muitas vezes invisível e a vítima culpabiliza-se. O agressor está dentro de casa, representa a autoridade - é difícil de combater. O agressor agride os filhos, a mulher, os pais. Enquanto coordenadora do gabinete, acompanhei muitos abusos de menores (que não têm voz, que são acusados de mentir, que não têm Associações e que sobretudo não votam), de mulheres (muitas delas jovens rurais, analfabetas, com gravidezes sucessivas, que nunca tinham ido a uma consulta de planeamento familiar) e muitos idosos dependentes, sequestrados e maltratados pelos filhos, mas incapazes de os denunciar por vergonha.
Continuo a trabalhar numa ONG vocacionada para os abusos de menores. Os números gritantes das estatísticas, que não são nunca notícia, falam dessa necessidade de continuar o combate.

Palavras Criativas – Abre-nos a porta da sala de aula e partilha uma história

Maria Manuel Viana - Somos habitualmente felizes, os meus alunos e eu. Entendemo-nos bem. Eles sabem que eu os respeito e que gosto deles, que me preocupo e isso é muito importante. Desde a 1ª aula que se estabelecem as regras: respeito mútuo, confiança, responsabilização. Não tento nunca substituir-me aos pais nem a um amigo mais velho - vamos aprendendo a conhecer-nos. Mas sabem que podem contar comigo, que eu sou justa, que cumpro o que prometo. Por isso, também cumprem - raramente falham. Nunca faltam às aulas, apesar de saberem que eu não marco faltas. Digo-lhes sempre que quem vai é para trabalhar, aprender, fazer - por isso, vão sempre, porque se sentem responsabilizados. Temos uma forma de gostar uns dos outros que passa pela aceitação das diferenças: eles não são de humanidades, lêem muito pouco, mas como sentem que a literatura é fundamental para mim, e porque acham que eu me esforço imenso para eles perceberem e gostarem também, empenham-se muito, e estudam, e lêem. Durante as férias, continuam a mandar mails e sms. Alguns vão para a faculdade e mantêm o contacto. É muito bonito. Às vezes, comovem-me, as mensagens.

Palavras Criativas – Obrigada por teres respondido ao desafio e deixa-nos um sentimento

Maria Manuel Viana - Um sentimento, não sei bem…talvez mais uma postura de vida, se é que a expressão não é presunçosa. O que eu penso é que, no fundo, de uma maneira ou de outra, nos espaços em que nós todos nos movemos e em que os grandes ideais ou já não fazem sentido ou já não são mesmo factíveis, há pelo menos uma coisa que cada um pode fazer e que se tornou para mim incontornável: a tentativa de que os outros sejam um bocadinho mais felizes.

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