
O que disse a apresentadora do livro, a escritora Maria Manuel Viana (viúva de Eduardo Prado Coelho):
“A estória deste livro começa no título: primeiro a música conseguida pela aliteração (conto/contro), logo a seguir o conceito sugerido pela quase antítese encontro/desencontro. No entanto, uma página branca a seguir chama-nos a atenção pela imensa mancha despojada: é aí que está a epígrafe breve, sem necessidade de adjectivos que a tornariam redundante: ao Pedro. E neste nome, possível narratário de tantas estórias desta narradora/xerezade que constantemente se metamorfoseia e reinventa, está contido todo o mistério do mundo. Ao Pedro, diz a autora. Que é Mónica Godinho Cunha, 36 anos, nascida em Cabo-Verde numa família estranhamente vocacionada para as artes: música, dança, artes plásticas, literatura.
De que falamos, então, quando falamos de desencontros? De contos, breves contos, que a Mónica quis que coubessem numa folha A4, dificílima tarefa. Mais correcto seria talvez chamar-lhes short stories esse não género literário que os cultores (e já são tantos!) defendem como o mais adequado à vida moderna. Por isso, não é de estranhar a verosimilhança de todas as estórias, isto é, acontecer aquilo àquelas personagens como poderia ter-me acontecido a mim ou a qualquer um de nós. E o primeiro lance está ganho, porque também de um jogo se trata quando um escritor escreve um livro – neste caso, o escritor conseguiu a nossa empatia.
E ao sentirmo-nos identificados (ou identificáveis) com as personagens, havia ainda de criar a situação. Ora a Mónica move-se num campo que nos é comum a todos, aquele a que poderíamos chamar a Pátria dos Afectos e que é, no fundo, a Essência da Lírica. (Eu hoje sinto-me infeliz mas houve um momento no meu passado em que fui profundamente feliz).
O pathos é sentido e vivido por nós e reconhecemo-lo como nosso, identificamo-lo e, no momento em que se torna dolorosamente insuportável, a Mónica oferece-nos a catarse como saída possível – quando ainda é possível haver saída.
Também no campo simbólico as leituras são muitas. Doze capítulos, decidiu a Mónica, e não seguramente por acaso: para além da evidência dos 12 meses do ano, também na simbologia bíblica o peso é imenso: as 12 portas de Jerusalém, os 12 apóstolos, as 12 cadeiras, a expressão cósmica do Zodíaco, o ciclo litúrgico do ano, as 12 tribos de Israel, os 12 fundamentos do Apocalipse.
Mas, perguntarmo-nos-emos, de que fala a Mónica em cada conto? E como fala? É ao escolher o verbo Falar em vez de Escrever, estou já a anunciar um dos métodos de escrita da autora, o método dialógico, aquele em que um eu fala para um tu, muitas vezes em nome de um nós que já não existe senão na memória desse eu.
E é precisamente o que se passa no primeiro conto: há um passado que foi feliz em contraposição a um presente infeliz. No entanto, a mulher que conta a história mantém os mesmos gestos na esperança e na urgência de reencontrar o homem com quem foi feliz um dia. E o elemento surpresa espreita essa mulher (que é poeta, o que não pode ser ocasional) como nos espreita a nós, leitores, como um truque de mágica que nos faz subitamente sentir felizes tal como o patinho feio que se transforma em cisne – excelente parábola, aliás, com a desconstrução de todos os estereótipos familiares: a irmã mais bonita, o pai mais condescendente, a mãe mais repressiva, o príncipe mais encantador.
Circular também é o conto das telas de amor, aquele em que a focalização se desloca pela primeira vez – não temos uma narradora autodiegética, isto é, uma narradora que conta a sua própria estória, mas sim uma que está fascinada pela estória de outra pessoa. E que pessoa é esta? “Dizem que é louca” – anuncia a narradora e deste dizem a narradora está, claramente, a excluir-se. Mas circular, diria eu, porque se o conto se inicia por esta frase “Dizem que é louca” e depois a narradora se e nos aproxima desta mulher que dizem louca, explicando as razões da loucura (sempre o amor perdido) o final é uma espécie de fusão, de simbiose entre a personagem e a narradora, porque é esta própria quem confessa que deseja muito ser ela.
Tal como o faz na vida pública, a autora nunca deixa dúvidas quanto às suas posições ideológicas e às suas causas. A defesa dos oprimidos é evidente, assumidamente evidente: questões como a violência doméstica, a homossexualidade, a prostituição são claramente abordadas, sem rodeios nem hipócritas palavras de repreensão ou compreensão, que para o caso da defesa das causas são igualmente perigosas.
Conhecemos, então, uma prostituta que gosta de poesia mas não de qualquer poesia ou uma mulher espancada que nos fala, já depois de morta pelo marido, recordando-nos as mais de 40 mulheres que só no ano passado morreram em Portugal às mãos dos companheiros – 1 por semana -, número esse que tem vindo a aumentar assustadoramente ano após ano e que dá lugar, quando dá, a tão curtas notícias nos telejornais. Ou um homossexual que se sente culpado por sê-lo, com medo e vergonha face a uma sociedade que discrimina quem é diferente. Ou ainda a mãe solteira que inventa um pai herói para a filha para esconder a vergonha de não se ter casado. Ou ainda, num registo diferente, a estória do músico cego. Aqui, o narrador é masculino – é o próprio cego, apaixonado pela voz duma stripper: e é exactamente esta des-machização que o torna sublime aos nossos olhos mas, ironia das ironias, ridículo aos olhos da stripper.
É a partir destas pequenas falhas, destas roturas na mansidão burguesa dos dias e dos hábitos do quotidiano que a Mónica constrói, laboriosamente, as suas short stories. Que são, no fundo, uma história de vida, ilustrada por colagens que nos remetem para um universo onírico, carregado de símbolos aparentemente femininos mas, de facto, no fundo, fálicos: dedos, unhas longas, pernas, saltos altos.
Propositadamente, deixei para último o Para Sempre, a mais intertextual de todas as short stories: desde logo, Vergílio Ferreira, pelo título, belíssima homenagem da Mónica. Como também a é a da primeira frase “Morreste-me”, esse espantoso verbo reflexo que um dia o José Luís Peixoto inventou e que passou a fazer parte do léxico português. De facto, as pessoas morrem dentro de nós, morrem para nós, morrem-nos. Todo o texto é então construído como um diálogo entre um eu, “sobrevivente a mim mesmo como um fósforo frio” e um tu que já morreu, num acidente estúpido como o são todos os acidentes. E é nesse cenário de desolação e morte que a narradora diz finalmente ao amado que o ama. Demasiado tarde, porém. Tal como no romance de Inês Pedrosa, “Fazes-me Falta”, só quando a pessoa amada morre é que percebemos verdadeiramente que perdemos todas as oportunidades de lhe dizermos quanto e como a amávamos. Mas isso di-lo a autora, em duas frases muito bonitas com que termina dois dos contos: uma, que é a reformulação de um verso de uma cantiga de amor provençal “esta noite morri de amor (contigo)” e outra, que consubstancia a escrita da Mónica e poderia servir de mote não só a estes contos de desencontros mas também à própria autora:
Vais sozinha, Mónica?
Não. Vou comigo”.

O que disse a autora, Mónica Godinho Cunha:
“Boa noite a todos,
Antes de mais, quero agradecer a vossa presença, neste dia tão especial para mim.
Gostaria de agradecer em particular, o apoio da minha Família:
Ao Pedro, a quem dedico este livro, pelo nosso encontro feliz.
Aos meus Filhos, a luz da minha vida.
Aos meus Pais, a quem devo o que sou.
Aos meus Irmãos, pelo afecto que nos une.
Aos meus Avós, de quem herdei a veia artística.
À minha Tia Maguy, que me incentiva a criar.
Também gostaria de agradecer ao Professor Luís Carmelo, pela generosidade ao aceitar o meu convite para escrever o Prefácio; à escritora Maria Manuel Viana pela sensibilidade com que apresentou o meu livro e, finalmente à Chiado Editora pela concretização do sonho de editar um livro.
Como é impraticável nomear cada um de vós, agradeço a todos por estarem aqui hoje a partilhar este momento de felicidade.
Gostaria de falar-vos um pouco do livro Contos de Desencontros.
Escrever contos que coubessem numa página A4. Desta ideia simples nasceu, no Verão passado, o livro “Contos de Desencontros”.
Os 12 contos, curtos e intensos, têm a ambição de “fazer sentir” e abordam temas como o amor, o desejo, a paixão, a violência doméstica, a homossexualidade, os encontros e os desencontros da vida.
Em termos de processo criativo, confesso que a minha mão foi-se soltando e libertando personagens, o reformado que quer começar a viver, o palhaço que não consegue verter uma lágrima, a prostituta que gosta de poesia, entre outras.
Todavia, para mim, é na combinação forte entre texto e imagem, propiciada pelo facto de ser também a autora de todas as colagens que ilustram o livro, incluindo a capa, que reside a sua originalidade.
Para finalizar, desejo-vos a todos um bom “encontro artístico” com o meu livro, que espero seja a partir de hoje, também vosso.
Muito Obrigada”.
5 comentários:
Querida prima, que alegria e orgulho sinto em ver o teu sonho realizado! E...como posso obter uma copia??
com carinho,
Leida :)
PARABÉNS, PARABÉNS E MAIS PARABÉNS!
QUE ESTE SEJA O PRIMEIRO DE MUITOS MAIS QUERIDA PRIMA.
BEIJÃO BEM GRANDE.
Monique, lido o livro, senti vontade de te dizer quais as minhas ideias/frases preferidas em cada conto.
1. "Conheci outros homens e casei-me com o mais persistente."
2. "Tudo o que a minha avó me dizia ser o mais feminino e mais apropriado pra uma menina como eu, entediava-me."
3. "Morri nas tuas mãos como uma borboleta apanhada na rede."
4. "Abracei-a com muita força e desejei muito ser ela."
5. "Todos desconheciam que sofria por dentro do sorriso."
6. "... pela primeira vez desde que o conheceu, sentiu que aquele poema não era para ela."
7. "... o teu pai morreu no mar. No mar das minhas lágrimas."
8. "Nesse dia, além do meu melhor amigo, perdi a vergonha."
9. "Agora quero virar-me para mim" e "Vou comigo."
10. "Como é que vou conseguir sobreviver a ti?"
11. "Ainda me vou rir desta situação."
12. "Provocas-me sempre esta sensação de harmonia com o mundo."
E o meu conto preferido é o "O que te faz feliz".
Parabéns pelos 12!
NCT
Queridas primas Leida, Velu e NCT,
Agradeço as vossas mensagens de apoio.
NCT,
Obrigada pela partilha de ideias/frases preferidas do livro.
Uma voz generosa, para ler aqui:
http://vdmaktub.blogspot.com/2009/03/contos-de-desencontros.html
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