O QUE TE FAZ FELIZ
Estou reformado. Trabalhei muito durante toda a minha vida. Para poder cuidar da minha mulher e dos meus filhos. Cumpri a minha missão. Os meus filhos já construíram as suas próprias famílias. Sou avô de sete netos. Agora apetece-me aproveitar o tempo que me resta a dedicar-me a mim próprio. Sempre desejei viajar. Conhecer o mundo. Fui adiando as viagens por diversos motivos: falta de tempo, falta de dinheiro, filhos pequenos. Enfim, é chegada a hora de partir. Viver a minha vida à minha maneira. Conhecer outras paisagens, outras culturas. Enquanto ainda tenho saúde e força de vontade para correr atrás de um sonho. Sinto que tenho esse direito depois de uma vida dura de trabalho em prol da família. Agora quero virar-me para mim. Hoje enfrentei o espelho da casa de banho e perguntei ao meu reflexo: o que te faz feliz? E ele respondeu-me sem hesitar: apanha o primeiro avião. O destino é indiferente. Tenho tanto para ver. Como explicar à minha mulher esta minha ânsia de liberdade, este desejo de ter asas para voar pelo mundo. Preciso falar-lhe desta minha intenção de ir à procura da paz do silêncio mas pressinto que a minha mulher não me vai compreender. Se calhar até vai-me chamar de velho senil. Tal como os meus filhos. Estou disposto a correr esse risco, todos os riscos. Já perdi demasiado tempo a viver para os outros. Estou cada vez mais interessado em mim. Quero conhecer-me. Estou curioso comigo mesmo. Como irei reagir perante novas sensações, novos sabores, novos cheiros. O que irei sentir quando estiver do outro lado do mundo. Sacrifiquei uma vida inteira em troca de um momento de felicidade. De puro prazer. Aos setenta anos poder finalmente acordar o viajante adormecido dentro de mim. E desafiar o aventureiro escondido por trás do trabalhador dedicado. Vais sozinho? Não. Vou comigo.
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