“O desencontro era impressionante. Ainda que na altura o não quisesse reconhecer, fui tomada por uma emoção estranha quando, no final da última tentativa de levarem a récita até ao fim, as vi descer do estrado, muito direitas, muito solenes, a olharem em frente, na direcção de um ponto invisível que deveria ser a dignidade. Não era meu hábito. Eu costumava ser bem segura, bem contida, trocista quanto baste, mas naquele momento, encostada a um canto, de costas viradas para o meu grupo, comecei a chorar à socapa para dentro de um lenço. Até que os meus ombros me traíram chorando também. Provavelmente, chorava por elas em mim, como acontece em semelhantes casos. A minha ideia, porém, é que chorava de vergonha de todos nós na pessoa das sopranos, ainda que não quisesse admitir o que nisso havia de lástima. E a admiração que eu nutria pelas irmãs fez-se tão elevada, que as suas figuras chegaram a ocupar o lugar vazio destinado aos seres inacessíveis, aquele pedestal que sempre temos preparado para preencher pela beleza, e raramente encontramos objectos à altura de semelhante culto”.
Lídia Jorge in A noite das mulheres cantoras
Lídia Jorge in A noite das mulheres cantoras
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