domingo, 12 de dezembro de 2010

Palavras Criativas entrevista…Nancy Curado Tolentino

Palavras Criativas – Fala-nos da tua experiência enquanto investigadora da SOCIUS – Centro de Investigação em Sociologia Económica e das Organizações

Nancy Curado Tolentino – Eu gosto de ser investigadora. Académica, diga-se. Pois, valorizo imensamente a curiosidade, o estado de dúvida, a liberdade de pensamento, os pontos de vista diferentes que se ouvem uns aos outros e (por vezes) se respeitam… Enfim, agrada-me a sensação de ser pensante, ser incompleta e estar sempre à procura de melhor. Contudo, dependendo do país onde se desenvolve a actividade, a investigação académica é mais ou menos valorizada (social e financeiramente) e é mais ou menos estável. Eu diria que, nesta perspectiva, a minha vida profissional é pouco valorizada e é instável. Mas dá-me gozo.

O SOCIUS é uma unidade de investigação integrada no Instituto Superior de Economia e Gestão (ISEG) da Universidade Técnica de Lisboa, cuja principal área científica de actuação, Sociologia Económica e das Organizações, privilegia os múltiplos pontos de contacto entre a Sociologia e a Economia. Dentro desse grande chapéu, o centro desenvolve quatro linhas de investigação: (i) Organizações, Trabalho, Emprego e Género; (ii) Ciência, Tecnologia, Saúde e Profissões; (iii) Desenvolvimento Sustentável, Terceiro Sector e Redes Sociais e (iv) Economia, Espaço, Cultura e Globalização. Eu fui convidada a colaborar nesta última linha, dentro da qual trabalho em estudos que abordam o tema das migrações.

Estar no SOCIUS é, antes de qualquer outra coisa, um desafio pessoal. Pois, ando no meio de uma maioria de sociólogos – eu sou licenciada em gestão de empresas – e isso por vezes confunde-me e, ao mesmo tempo, me agrada.


Palavras Criativas – Desvenda-nos um pouco da tua Dissertação de Mestrado em Desenvolvimento e Cooperação Internacional (DCI) no ISEG.

NCT – Estes últimos dois anos de mestrado foram intensos e interessantes. Embora não tenha satisfeito a minha expectativa de discussão e genuína troca de ideias em sala de aula, o programa de DCI ajudou-me a cumprir o objectivo, pessoal, de alargar os meus horizontes para áreas mais “cinzentas” do que aquele “preto-e-branco” que aprendemos nas licenciaturas de gestão e economia.

A minha dissertação, “Migrações internacionais e política de desenvolvimento no país de origem: o caso de Cabo Verde” surgiu de uma preocupação minha que resulta da forma como as políticas criadas para gerir o fenómeno migratório se têm desenvolvido. Isto é, entre os discursos “migração como um problema” (nos países que recebem os migrantes) e “emigração como solução para as questões de desenvolvimento” (nos países de origem dos migrantes). Onde a tendência é instrumentalizar as migrações a favor do desenvolvimento. Parece que ainda não se percebeu que ambos se fomentam mutuamente. Pois, a migração é um tipo de resposta de milhares de pessoas às mudanças nas condições de desenvolvimento. E este, por sua vez, fomenta a mobilidade humana. É neste contexto que procurei perceber de que forma as migrações se relacionam com o desenvolvimento de Cabo Verde, na perspectiva da acção do Estado cabo-verdiano. Fiz isso através da análise de três elos -- a diáspora, as remessas e os esquemas de migração temporária -- e com o intuito de compreender se a emigração pode ser um factor catalisador e sustentador dos processos de desenvolvimento.

A lição que se pode reter é que a migração, sob circunstâncias gerais desfavoráveis, não conduz “automaticamente” ao desenvolvimento. Ou seja, para o país se desenvolver é necessário criar e fortalecer instituições e políticas sãs, e não instrumentalizar aquilo que, em parte, são consequências da falta de desenvolvimento, sejam diásporas, remessas ou esquemas de migração temporária. Concluindo, a emigração pode ser um factor catalisador, mas não sustentador, dos processos de desenvolvimento.


Palavras Criativas – Conta-nos a experiência de partilhar a autoria do estudo para o Observatório da Imigração / Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo Intercultural “Impactos das Remessas dos Imigrantes em Portugal no Desenvolvimento de Cabo Verde”

NCT – Participar na elaboração do OI_27 – forma como o A. Tolentino, o C. Rocha e eu nos referimos ao estudo que elaborámos em 2007 -- é que me fez descobrir o nicho de pesquisa migrações e desenvolvimento. E, em certa medida, influenciou a minha escolha pelo mestrado que concluí este ano. Para além disso, sinto-me uma privilegiada em ter podido colaborar com o Observatório da Imigração, que tanto tem feito por derrubar lugares comuns a cerca das migrações e dos migrantes em e de Portugal.


Palavras Criativas – Obrigada pela “conversa” e deixa-nos uma mensagem

NCT – A migração é uma prioridade de política interna para os países de acolhimento e empurra os compromissos internacionais de desenvolvimento para o segundo plano. Por exemplo, a migração temporária e a fuga de quadros são duas áreas onde as políticas nos países de acolhimento são baseadas nas suas próprias necessidades, e onde qualquer dimensão de desenvolvimento (do país de origem) não é uma preocupação primordial. Em 2011, estarei atenta à forma como os interesses económicos e políticos influenciarão as percepções e desejos relativos às migrações, e em especial, à relação dessas com o desenvolvimento.

E vocês, estarão atentos a quê?

Conheça o working paper MIGRAÇÕES, REMESSAS E DESENVOLVIMENTO: O CASO AFRICANO Nancy Curado Tolentino

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