quarta-feira, 21 de julho de 2010

Palavras Criativas entrevista…Vasco Luís Curado (escritor, psicólogo clínico)



Palavras Criativas – Fale-nos do seu romance recentemente editado “A Vida Verdadeira”




Vasco Luís Curado – A ideia central da “A Vida Verdadeira” é a de que a nossa verdadeira vida é a que sonhamos, não a que realizamos. Vergílio, o narrador, no acto de vender a casa de família, rememora a infância, a mãe super-protectora, o pai fantasista e megalomaníaco, a irmã com quem teve uma relação simbiótica, e outras figuras que marcaram o seu percurso, como um tio veterano da guerra colonial e um professor que enlouqueceu. Na iminência de enfrentar a vida prática e quotidiana de um adulto autónomo, para a qual não se sente preparado, assume que o seu destino é a escrita. Percebe que, escrevendo, pode perceber-se melhor e pode continuar a proteger a sua vida verdadeira, sonhada, irrealizável, que lhe dará um abrigo feito de palavras que substituirá a casa da família. Vergílio não se limita a recapitular a sua infância, mas recapitula o desenrolar da cadeia dos antepassados e, no capítulo 20, intitulado “O sonhador”, vai mais longe ainda, mais atrás no tempo, e recapitula a história da cultura humana e a história da espécie, da qual ele, como qualquer outro indivíduo, é uma emanação, e julga poder inscrever aí, no destino colectivo, o seu destino individual. Tudo isto, novamente, para redescobrir que a linguagem verbal alfabética é a obra-prima da consciência humana e que será esse o seu instrumento de eleição para se perceber a si mesmo e ao mundo que o rodeia. As palavras dizem e edificam o mundo, que assim será habitável para Vergílio.

Palavras Criativas – O que representa para si a escrita?

Vasco Luís Curado – A escrita é o cerne da minha identidade, desde que, em criança, decidi que queria ser um escritor. Sei que há escritores que só relutantemente acabam por se assumir como tal. No meu caso, foi ao contrário: foi uma decisão pessoal, tomada aos dez anos de idade, e que passou desde então a condicionar tudo o mais que eu fazia, tudo o que eu pensava de mim mesmo e do meu estar-no-mundo. A escrita é a minha prioridade. Cervantes disse que Dom Quixote nascera para viver e ele para escrever. Conservando as devidas proporções em relação a Cervantes, acho que também nasci para escrever, sendo o viver condicionado por isso ou uma consequência disso. Escrevo, então, baseando-me em experiências subjectivas (deixa de fazer sentido distinguir autobiografia e ficção) e nas experiências vividas pelos outros, que tento observar atentamente. A escrita não pode ser só entretenimento, tem também de ser conhecimento, tem de proporcionar conhecimento, senão ao leitor, pelo menos ao autor. Curiosamente, “narrar” vem do latim “narro”, que significa “dar a saber”.

Palavras Criativas – Partilhe uma história do “baú das memórias”

Vasco Luís Curado – Há algumas recordações de infância em “A Vida Verdadeira”, sobretudo no capítulo 3 (“Ondas maternas”), embora a narrativa de ficção tenha boas razões para não se limitar a ser memorialística e autobiográfica: há um campo de pesquisa e conhecimento muito maior que é a vida dos outros, a personalidade dos outros, as experiências dos outros.

Palavras Criativas – Agradeço esta “conversa” e peço-lhe uma mensagem

Vasco Luís Curado – As pessoas precisam de quem escreva ficção, que não é mais do que a continuação de um dos actos humanos mais antigos: o de contar histórias, recontar os mitos que narram a aventura humana, indagar as origens do mundo e do nosso lugar nele. Será sempre necessário escrever sobre as pessoas, conferir-lhes o aspecto de lenda e de sonho que é a sua vida verdadeira.


Fonte da Fotografia: retirada da internet

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