quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Palavras Criativas entrevista...Luís Filipe Pereira (Poeta)


Palavras Criativas – Ser poeta é…


Luís Filipe Pereira – Por incapacidade minha em definir o ser poeta, ocorre-me o que Santo Agostinho afirmou sobre o tempo: «Se ninguém me perguntar eu sei, porém, se quiser explicar a quem me perguntar, já não sei» (Eclesiastes, XI, 14, 17). Ser poeta é, porventura, o respirar pela sístole e diástole das palavras e, assim, mergulhar no ondeante fluxo do dizer e do silêncio com o “pasmo essencial” (Alberto Caeiro), com o incontível espanto perante o mundo que, verso a verso, som a som, imagem a imagem, vai sendo transposto na linguagem poética. Ignorando o que seja o ser poeta, diria que o poema é a definição do que vejo (in A Tela do Mundo).

Palavras Criativas – Fale-nos do seu livro “A Tela do Mundo” (publicado em 2008)


Luís Filipe Pereira – O Livro A Tela do Mundo (com pintura original de Laura Cesana na capa e com Posfácio da Professora Doutora Isabel Clemente) tem como horizonte de fundo a concretização, no plano literário, de uma temática que, há muito, vem norteando as minhas investigações universitárias: o concerto das artes. Em A Tela do Mundo as linhas de flutuação, aquelas que geram as grandes harmonias e as incólumes descobertas, orientam-se à volta de três núcleos concêntricos, sobrepostos, em quiasma: poesia-pintura-filosofia. A ideia seminal do livro foi o ensaio expressivo de poetizar os sentires de um sujeito (o tal “fingidor” autobiografado por F. Pessoa) situado perante pinturas e ideias estéticas de alguns pintores, nacionais e estrangeiros, contemporâneos. Com a assunção de “alguns” está latente, de forma inevitável, uma corrente electiva, uma trajectória pautada por uma dupla limitação: a omissão de pintores e pinturas que não me fascinam menos do que as que funcionaram como alavanca dos poemas insertos no livro e o segmento de tempo da contemporaneidade. Em certo sentido, moveu-me a ideia de reinvenção do motivo clássico da Ekphrasis (modo de invasão do plástico pelo literário, de contaminação do poético pelo pictórico). Porém, ao longo do livro, em favor da autonomia de cada construção poética, jamais enveredei pela descrição de quadros ou de curvaturas picturais que pudessem desviar o olhar dos leitores para o valor (ou desvalor) dos poemas como objectos em si. Assim, não estamos ante poemas sobre quadros ou sobre determinados motivos figurais das pinturas e dos pintores invocados: este livro torna-se o lugar onde a emoção face aos quadros aparece, conquanto seja a palavra poética que desenha, configura, faz aparecer os seus próprios quadros poemáticos. Eis alguns exemplos de pintores de que partiram poemas deste meu livro: Vieira da Silva, Chagall, Hopper, Graça Morais, Frida Khalo, van Gogh, Lourdes Castro, Klee, Ilda’David, Magritte, João Vieira, entre outros.


Palavras Criativas – Partilhe uma história do seu álbum de memórias artísticas (por exemplo, quando conheceu António Ramos Rosa)


Luís Filipe Pereira – Sem dúvida um dos arremedos mais belos, esse para sempre intacto no meu álbum de memórias, foi o encontro com o meu Poeta de eleição António Ramos Rosa. As mãos do Poeta, o afecto do aperto de mão: a reversibilidade da mão tangível e da mão tocante, o encontro com os dedos que escreveram, entre tantos versos, “sou animal marinho de uma delícia verde”, entre tantos livros - que o tornaram, de facto e de direito, com Fernando Pessoa e Herberto Helder, um dos poetas mais marcantes do Séc. XX e uma voz imorredoura na literatura portuguesa e universal - “As Palavras”, “O sol é todo o Espaço”, “O Aprendiz Secreto”. No dia em que o conheci, no espaço privado da sua residência no Restelo, fui-lhe entregar, humílimo e deslumbrado, em primeira mão, a minha tese de mestrado em teoria da literatura – titulada “A Invenção do Espaço na Poética de António Ramos Rosa” – que, horas depois, entregaria na Universidade. Os olhos azuis, uma correnteza de água interminável, de A. R. Rosa a transmitirem-me, em transparente caleidoscópio, o espanto, a adolescência, a celebração sapientíssima da vida, o incondicional amor à palavra. A afectividade com que me recebeu; a mesa de trabalho do Poeta, livros sobre livros, páginas e páginas, a caligrafia do Poeta (a tinta, ainda no seu esplendor de seiva bruta derramando espaços sobre o branco das folhas; a lucidez vívida, a memória prodigiosa; as leituras de poemas seus, de poemas em francês que o poeta me ofereceu, o que falámos sobre poesia, sobre filosofia, centenas de desenhos, em especial de rostos femininos do Poeta. Tanto que guardo nesse álbum de memórias igual a um ponto geodésico no mapa dos meus afectos. Numa palavra, conhecer, estar com António Ramos Rosa é sentir-me próximo, dentro, da própria Poesia, a atestação suprema de uma sua afirmação: “o poeta é um ser com e para os outros”

Palavras Criativas – Obrigada por ter aceitado o desafio e deixe-nos uma mensagem poética

Luís Filipe Pereira – Grato pela gentileza deste desafio, partilho hic et nunc um verso meu (in A Tela do Mundo): à volta da lâmpada do poema/ sonham as estrelas a azul melancolia”.

Visite o blogue “Intertextualidades – Estou vivo e escrevo solhttp://lippepereira.blogspot.com/

4 comentários:

Anónimo disse...

Magnífica entrevista de quem, sabiamente, de forma humilde e generosa, vive por dentro a poesia, a literatura. Parabéns pela iniciativa e minha admiração pelo entrevistado.

Teresa S. Guido

Anónimo disse...

Adorei ler esta entrevista, o modo pedagógico, rico e interessantíssimo como as perguntas são respondidas. Muito belos os versos da "mensagem" deixada no final.

Parabéns à iniciativa da autora do blog.

Rita Correia Valente

Anónimo disse...

Obrigado Mónica, por continuares a nos presentear de criatividade escrita e imagética, com a regularidade e actualidade que nos habituou a sermos utilizadores frequentes deste teu espaço. Em particular ao Luís Filipe, a admiração pela sua cumplicidade com as palavras. rui

Anónimo disse...

Muit+issimo interessante a entrevista do Luís Filipe Pereira cujos textos vou lendo sempre com encanto e fascínio no seu blog, a que costumo chamar um oásis na blogosfera. Muito bela e enternecedora o modo como LFP descreve o seu encontro com António Ramos Rosa.

Parabéns

Teresa Cadete