
Palavras Criativas – Como é que se ensina a ser criativo na escrita?
Luís Carmelo – Não se ensina. Platão tinha razão quando imaginou que a vida era um salão com uma cortina, a meio, pendurada do tecto. De um lado respiramos, do outro lado o teatro de sombras saberá, sem o dizer, porque respiramos. Ser criativo é não apenas preencher, mas, sobretudo, agir. Sem dar confiança às sombras que se exibem do outro lado da cortina. Não creio na inspiração do génio romântico, mas sei que há momentos de rasgo como são os momentos da paixão. Trabalhar com ferramentas é colocar quem quer trabalhar num transe que se experimenta. Uma aplicação continuada e lenta. Por vezes, a certa altura, levantamos a cortina e tocamos na barriga dos deuses. Que afinal são coisas tangíveis. Como uma nora ou um garfo. E escrevemos como se fôssemos românticos a imaginar Ofélias em cada canto da lua. Mas não se aprende, não. Apreende-se do mesmo modo que se apreende e esquece o cheiro do limão. Ou da pele. A mais bela pele do mundo.
Palavras Criativas – Que balanço fazes do PNETliteratura?
Luís Carmelo – Uma grande experiência. Sobretudo, neste momento em que entraram novos escritores residentes no site: Patrícia Melo, Ondjaki, Nelson Saúte e Eduardo Pitta. O futuro do PNETliteratura passa menos pela disputa da notícia actualizada - essa feérica tormenta da comunicação pela comunicação - e mais pela 'produção' cirúrgica de inéditos literários. É aí que queremos fazer história em tempo de zapping autorial. Para além disso, os observatórios são uma prática importante no nosso conceito editorial em alternativa à 'pesada' tradição da crítica (veja-se a diferença entre a postura do observatório e a postura da crítica: mais sucinta e menos magistral; mais processual e menos 'compendiosa', mais dessacralizada e menos teórico-literária, mais ecléctica e transdisciplinar e menos académica). Para além destes dois aspectos estratégicos - inéditos vs. observatório -, respondemos ainda aos ludemas que são absoluta marca do nosso tempo. Daí o folhetim. Além dos eixos fundamentais que tornam o PNETliteratura num site singularizado e capaz de reflectir o Português literário do mundo (somos patrocinadores da FLIP de Paraty), é também importante que a voz dos mais diversos 'agentes' nele apareça sem quaisquer artifícios. Embora com reserva de qualidade. Daí a natureza das nossas pré-publicações, do formato das mini-entrevistas e do próprio Literanário, espaço aberto a quem desejar surgir literariamente em público.
Palavras Criativas – Fala-nos dos vários projectos em que estás mergulhado (lojas de design, próximo livro, blogue Miniscente)
Luís Carmelo – Tenho duas lojas de design que podem ser visitadas aqui e aqui
Gosto de design, porque ele funde a estética com a eficácia, afastando-se da dessacralização da 'poiesisp' romântica, mas concedendo-nos, ao mesmo tempo, o prazer e a emoção de poder fundir poética com vida. Um prazer profundo e actual que, devido a várias contingências, ganhou forma de negócio. Coisas normais. Escrevi muitos ensaios sobre teoria da cultura e semiótica em que o design, no seu sentido mais lato de corporização dos nossos gestos, esteve sempre presente. Dessa presença ao corpo, ao nível do 'hardware', foi um passo. Mas continuo a escrever literatura, a dar aulas na universidade um dia por semana (mais do que isso criaria alergias) e a editar um site, em breve dois, pois vem aí o PNETdesign. Mas a minha ocupação quantitativamente mais forte são os cursos online. Em variadas instituições, claro.
Palavras Criativas – Conta-nos uma história do teu “livro da vida”
Luís Carmelo – Era uma vez uma estrada, Nocturna e cheia de faróis. Uma nuvem plana e instável. De olhos fechados vi asas. O cansaço. Até que um carocha parou. Ia para Calais e eu estava em Burgos. Dormi depois de Bordéus. E vi traineiras com vime e fumo açucarado, quando entrei na Flandres e lembrei o meu avô que ali fora atacado com gás. Quando cheguei à grande cidade, havia cometas suspensos das túnicas muito longas que engalanavam o asfalto. E as feridas das paixões a vir. A estrada, essa, nunca mais me abandonaria. Uma história de árvores. E de fantasmas feitos de lençóis a correrem sobre as ameias do castelo. Sim, havia um castelo à beira da estrada.
Palavras Criativas – Obrigada por abraçares este desafio e deixa-nos uma mensagem criativa
Luís Carmelo - Adormece no grão fino entre canaviais ermos, mós, pontes levadiças e algumas linhas de água com horizonte de fadário.

2 comentários:
Carmelo ao seu melhor estilo, linda entrevista. Parabens Monica pelas perguntas de uma eficacia doce, bem haja o Luis pelas respostas em tom musical de conteudo absolutamente, saboroso.
Vanessa
Também aqui
http://aescritacriativa.blogspot.com/2010/01/entrevista-de-palavras-criativas.html
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