ANTÓNIO ALVARENGA (Chefe de Divisão de Análise Prospectiva no DPP/MAOTDR; responsável por várias cadeiras na área da Prospectiva Estratégica e por cursos executivos no ISEG. Coordenador Científico da Pós-Graduação em Economia Portuguesa do ISEG/IDEFE na qual é responsável por uma disciplina sobre o Futuro da Economia Portuguesa. Coordenador do curso “Tendências, Cenários e Estratégia” e outros cursos para decisores no INA.)
Palavras Criativas – O futuro pode ser “moldado”/“construído” (Princípio de base da Prospectiva)?
António Alvarenga – Uma parte do futuro depende de nós. Uma parte do futuro de Portugal depende do país. Uma parte do futuro de uma qualquer organização ou território depende deles. Daí a importância da Visão, daquilo que desejamos ser como organização, território ou país.
Uma outra parte não depende de nós, e não é menos importante. Depende do contexto externo, o qual não controlamos. Até o podemos influenciar em alguns aspectos mas não o controlamos. Por exemplo, uma parte muito importante do futuro de Portugal, a médio prazo, depende da evolução das economias espanhola e alemã. Ou do futuro da UE e do Euro. Temos que perceber muito bem as forças que não controlamos para percebermos que riscos e oportunidades comportam. Que evoluções possíveis é possível antecipar. A que sinais temos que estar atentos.
Palavras Criativas – Até que ponto a incerteza (imprevisibilidade) é uma questão fundamental para a construção de cenários (como será o futuro)?
António Alvarenga – Não há Cenários sem incerteza. A incerteza é a matéria-prima dos Cenários. Os Cenários são simulações de futuros possíveis. Permitem-nos construir contextos em que as decisões poderão vir a ser testadas e analisar, como num túnel de vento, a resistência e a performance das mesmas em diferentes “mundos plausíveis”. Em Prospectiva somos apaixonados pelas incertezas mas nem todas as incertezas nos interessam. Interessam-nos as que são verdadeiramente incertas (quanto mais sabemos sobre elas mais temos a percepção de que podem evoluir de diferentes maneiras) e as que têm um grande impacto na questão em análise. E, como o cérebro humano não se dá bem com muitas ideias ao mesmo tempo (principalmente se se tratarem de diferentes evoluções possíveis para uma mesma variável), é importante analisarmos bem o problema de forma a focarmos a nossa atenção nas incertezas que verdadeiramente nos permitem construir Cenários com relevância estratégica, “iluminar” a questão em análise e simular de forma plausível contextos futuros.
Palavras Criativas – Explica-nos as vantagens da aplicação da Prospectiva Estratégica para a sociedade.
António Alvarenga – A Prospectiva assume que não se pode prever o futuro, como é evidente hoje em dia. A Previsão funciona bem quando não há mudança estrutural, quando o passado explica bem o futuro. Mas falha quando é mais necessária, isto é quando a mudança estrutural ocorre.
Apesar de não ser possível prever o futuro, o futuro pode (e deve) ser construído. A capacidade de o construir resulta de um equilíbrio entre a capacidade de projectar no futuro o que queremos ser (a Visão) e de compreender o que pode acontecer no nosso contexto (os Cenários). A Prospectiva visa fortalecer, nas organizações, nos territórios e nas pessoas, esta capacidade de construir o futuro. Para tal conta com um conjunto de princípios, práticas e ferramentas oriundas de diferentes escolas e autores. Assenta, hoje em dia, em ideias como a co-criação e o design de processos específicos para responder a questões concretas; e em convicções como a de que o planeamento tem cada vez mais a ver com a forma como as pessoas/os actores pensam e decidem e cada vez menos com a escrita de estudos e planos.
A Prospectiva fornece uma linguagem simples (foco, horizonte temporal, incerteza, tendência, tendência pesada, sinais fracos, wild cards, etc.) para a conversação estratégica e para a tomada de decisão. A ideia é não complexificar a linguagem e os processos e não segmentar ou simplificar a realidade em análise. A mudança vem de longe, muitas vezes. Se ignoramos o longínquo dificilmente podemos compreender o próximo. Por exemplo, não é possível compreender o que se passou na economia portuguesa nos últimos 20 anos sem perceber fenómenos como a transformação tecnológica, a implosão da URSS ou a ascensão da China e da Índia em contexto de crescente liberdade de circulação de bens, serviços, capitais, pessoas e ideias. Aliás, sem esta perspectiva global, de “fora para dentro”, nem sequer conseguimos perceber o que se passa no nosso bairro.
A Prospectiva fornece ainda um conjunto de ferramentas/métodos (Método dos Cenários, Construção de Visões, Análise de Tendências, Scanning, Delphi, etc) e de melhores práticas.
Palavras Criativas – O que são os “Laboratórios da Mente” (Future Centers)?
Palavras Criativas – Obrigada por teres agarrado o desafio e deixa-nos uma resposta excêntrica (um dos princípios do método Delphi)
António Alvarenga – As respostas excêntricas, no sentido de desviadas da média, são particularmente importantes no método Delphi porque o respondente pode ter alguma informação sobre o assunto em análise que é desconhecida dos outros respondentes. Nesse caso, é muito importante conhecer a argumentação na base dessa resposta excêntrica e partilhá-la com o grupo de forma a saber se a mesma afecta ou não a avaliação que faziam de uma determinada questão (por exemplo, a probabilidade de ocorrência de um determinado desenvolvimento científico num determinado período).
O método Delphi, em si, não tem nada de excêntrico. É até um pouco aborrecido preencher um conjunto de formulários com base em expectativas para o futuro, normalmente na área tecnológica. Não deixa de ser uma forma muito poderosa de perceber os rumos da ciência e da tecnologia e informar a Política. A maioria das grandes economias recorrem a ele de forma regular. Hoje já é aplicado a outras realidades. Mas a sua base é a Prospectiva Tecnológica.
Ao contrário da ficção, a realidade não tem que ser plausível. A realidade, o que temos oportunidade de viver todos os dias, é a maior das excentricidades. Depois, o cérebro humano, como é avesso à incerteza e a espaços vazios, normaliza essa excentricidade, explica-a. Basta olhar para a actual crise económico-financeira global e para a forma como, neste momento, parece algo relativamente fácil de entender e quase inevitável. De facto, foi uma completa surpresa para a generalidade das pessoas e organizações.
Às vezes o mais difícil é a contenção, a não-leitura imediata, saber esperar e ver o que está à nossa frente com “novos olhos”, ou melhor, com a percepção de que estamos a olhar para a realidade com “olhos treinados”, com uma cultura e uma necessidade de entender e explicar. Quem há muito tempo trabalha esta questão da leitura do real, em Portugal, é o João Fiadeiro, com quem tenho tentado encontrar pontes (e rupturas) entre o trabalho dele como artista, coreógrafo e pensador e o meu na área da Prospectiva. Temos encontrado pontes e vazios. Muitas dúvidas, claro. Mas a clara percepção de que lidamos com questões próximas e que o nosso foco de atenção é, muitas vezes, o mesmo (embora olhemos a partir de pontos diferentes).
Todos temos “modelos mentais” sobre o futuro. Todos temos também capacidade para ter consciência disso e para os questionar, fragmentar e voltar a construir, mais robustos, espera-se.
Obrigado pelo desafio, Mónica. Espero que construas um grande futuro e que aproveites as disrupções que vão aparecendo.

Para saber mais, consulte o perfil e os sites: www.princesaeuropa.blogspot.com e www.trendsensors.blogspot.
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