
Palavras Criativas – O que é um “mediatrainer”?
Jorge Nuno Oliveira - É um instigador. O mediatrainer ajuda a criar numa pessoa o gosto pela sua imagem, pelo seu comportamento, pelas suas reacções, pelo seu auto-controlo. É alguém que faz as pessoas acreditarem em si próprias e a superarem-se. Tecnicamente falando, um mediatrainer é alguém que ajuda uma pessoa a comunicar melhor a sua mensagem de dimensão jornalística, sobretudo através dos meios audiovisuais. Mas eu prefiro continuar a dizer que sou um instigador, porque consigo mexer muito com as pessoas. Exponho-as, como se estivessem diante de um espelho de almas e levo-as a acreditar no que elas têm de melhor.
Palavras Criativas – Em televisão, ter uma boa imagem é determinante?
Jorge Nuno Oliveira - Pode ajudar. Mas não é determinante. O que é realmente fundamental é saber comunicar. E isso não tem a ver com a estética. Tem a ver com a capacidade de partilhar, de envolver, de seduzir e de convencer. Conheço pessoas belíssimas que mal conseguem articular uma ideia. E lembro-me de pessoas que a estética consideraria «feias» e que são comunicadores fantásticos. Quem tiver paciência para pesquisar, que procure nos arquivos um programa de TV chamado «Se bem me lembro», apresentado por Vitorino Nemésio. Ninguém se atreveria a dizer que o escritor era um homem bonito. Mas todos os que tiveram o privilégio de ver os seus programas ficavam colados ao televisor, fascinados pela sua extraordinária capacidade de comunicar.
Palavras Criativas – “As boas notícias, não são notícias”?
Jorge Nuno Oliveira - Depende… No meio em que eu trabalho, diria que não são. Numa televisão privada, comercial, temos de fornecer produtos que sejam consumidos facilmente pelo espectador. E são poucos os que se interessam pelas chamadas «boas notícias». Hoje, bombardeados por meios de comunicação que nos chegam por todos os lados, somos atraídos por tudo o que é insólito, invulgar, extraordinário. Mas eu recordo que o jornalismo nasceu e cresceu a publicar as coisas normais que aconteciam a pessoas como todos nós, e não apenas as terríveis desgraças que enlutam o mundo. Por isso, acredito que também as «boas notícias» sejam notícia. Se eu não acreditasse nisso, dificilmente poderia ser jornalista.
Palavras Criativas – Tendo em conta a sua experiência jornalística, partilhe uma história aventureira
Jorge Nuno Oliveira - Receio desiludir os leitores deste blog… Não tenho grandes aventuras para relatar. Apenas pequenos episódios, como o ter feito um directo em televisão para uma câmara a fumegar (e o directo foi para o ar!), ou ter gelado os pés em Salamanca enquanto esperava pela entrada em directo, ou ter chorado quando assisti, em directo, em Macau, à cerimónia de transferência de poder para a China e com a imagem do Governador a encostar a bandeira portuguesa, dobrada, ao coração, ou quando me escondi em sótãos para ouvir reuniões, ou de como consegui adormecer, de extremo cansaço, a bordo de um insuportavelmente ruidoso avião C130 carregado de jornalistas, ou de como lutei para conseguir um telefone em Bissau, em 1982, para enviar uma crónica para Lisboa. Mas a minha maior aventura ainda continua a ser a de ter vivido em plena revolução tecnológica, passando por evoluções da minha profissão tão diferentes como a do filme para o vídeo e, depois, o digital; ou da máquina de escrever para o computador.
Palavras Criativas – Obrigada por não ter virado as costas ao desafio e deixe-nos uma boa notícia
Jorge Nuno Oliveira - Este, sim, é o maior desafio. Mas a melhor notícia que gostaria de deixar é a de que os jornalistas vão poder continuar a denunciar as injustiças. Sempre de uma forma independente, rigorosa e imparcial. Porque esse, creio, é um dos maiores desígnios do jornalismo: ajudar a fazer deste mundo um mundo melhor.
Jorge Nuno Oliveira é Editor do Programa Diário da Tarde, do TVI24
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