domingo, 5 de outubro de 2008

CONTOS DE DESENCONTROS



O SOM DO CORAÇÃO

Cada vez que te venho ouvir cantar fico arrepiado. A tua voz entra por mim a dentro e deixa-me extasiado. Deténs sobre mim o mesmo poder da flauta sobre a cobra: enfeitiças-me. Provocas-me sempre esta sensação de harmonia com o mundo. De tanto te ouvir cantar já percebi quem és. Porque és o que cantas. Bela musicalidade. Dás voz aos afectos mais profundos da tua alma. Sem pudor, partilhas emoções e sentimentos. Desinibida, revelas-te todas as noites perante um público desatento que não te vê, só te cobiça. Eu, aqui no meio destes pecadores, distingo-me pela merecida atenção que te dedico. Enquanto eles fazem ruído durante as tuas actuações, eu sou o único que te ofereço o silêncio. Escuto-te atentamente. Lá longe no palco, talvez já tenhas reparado em mim. Não sei. Sou aquele que te admira. O teu fã nº. 1. O prazer que sinto quando escuto o teu poderoso instrumento musical é indescritível. A tua voz sublime eleva-me. Só podes ser encantadora. Uma verdadeira musa de inspiração para o meu trabalho de compositor. Despertaste em mim de novo a vontade de criar. Agora escrevo para ti. Sentado ao piano componho a pensar em ti. Para ti. Para a tua magnífica voz. E imagino-te a fazer tuas as minhas melodias. És a minha deusa das notas musicais. És o som divino que preenche o silêncio do meu coração.
Hoje no final do espectáculo de striptease tentei chegar até ti. Queria entregar-te a música que compus especialmente para ti. Tenho a certeza que apreciarias o meu gesto se me tivesses dado uma oportunidade. Percebi que estavas receptiva quando me aproximei. Até sorriste para mim. Senti o teu olhar a pousar sobre mim. Mas desprezaste-me. Riste-te descaradamente quando te apercebeste da minha fragilidade. Quando te apercebeste que sou cego.

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