quinta-feira, 25 de setembro de 2008

CONTOS DE DESENCONTROS

O PATINHO FEIO
Quando li o bilhete entreguei-o logo à minha irmã. Só podia ser para ela, a menina bonita. Eu era o patinho feio que um dia se havia de transformar em cisne. Mas naquela altura ainda não sabia que ia ser assim. Era daquelas miúdas que, nas festas, quando começavam os slows nunca era das primeiras a ser escolhida pelos rapazes. Era demasiado alta para eles. Só nas aulas de educação física todos me disputavam e queriam-me nas suas equipas. Era muito veloz a correr, parecia uma gazela. Usava o cabelo sempre apanhado para não me atrapalhar os movimentos e não dispensava as calças de ganga, por serem confortáveis. Tudo o que a minha avó me dizia ser mais feminino e mais apropriado para uma menina como eu, entediava-me. Em pequena, o que eu gostava era de jogar ao berlinde, às caricas, ao peão com evidente destreza. Saboreava a aventura de subir às árvores e divertia-me a atirar sacos de água do terraço do meu prédio. O meu pai condescendente ria-se despreocupadamente da minha rebeldia, o que irritava bastante a minha mãe que vivia assustada com o meu espírito demasiado livre. As comparações com a minha irmã mais velha eram inevitáveis. Apesar de só termos um ano de diferença, éramos o oposto uma da outra. Em comum tínhamos a admiração pelo “Príncipe”, alcunha que lhe assentava que nem uma luva pois parecia saído de um conto de fadas. Alto, bonito, desportista nato, divertido, e extremamente educado. Um sonho para qualquer rapariga. Todas as minhas amigas suspiravam por ele. Confesso que a mim o “Príncipe” parecia ser demasiado perfeito para ser real. Foi por isso que na festa de aniversário da minha irmã, quando inesperadamente o bilhete dele me veio parar às mãos Queres namorar comigo? ofereci-o à minha irmã, sem nunca suspeitar que era para mim.

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