segunda-feira, 29 de setembro de 2008

CONTOS DE DESENCONTROS

A PROSTITUTA QUE GOSTAVA DE POESIA
Estava evidentemente apaixonado. A jovem prostituta para além de bonita era misteriosa. Gostava de poesia. Descobrira por mero acaso, que ela ficava excitada quando lhe declamavam versos. Quanto maior a eloquência maior o desejo. Cada vez que ele lhe dizia ao ouvido uma rima, toda ela estremecia de emoção. Aquilo deixava-o louco. Durante o dia andava ansioso e preocupado em decorar versos para a sua amada. À noite enquanto faziam amor, segredava-lhe os poemas. Foi assim durante meses. Inquietava-se a pensar nela e esmerava-se na selecção do repertório mais apropriado. Enquanto ela aguardava-o impaciente. Mais do que ele, do que ela gostava mesmo era do seu engenho para escolher versos que lhe despertavam a líbido. Ele estava cada dia mais apaixonado por ela. Achava-a irresistivelmente sedutora. E por isso, procurava agradar-lhe e satisfazer todos os seus caprichos. Ela sentia cada vez mais prazer em estar com ele, admirando-lhe a capacidade ímpar para lhe provocar orgasmos de palavras. Um dia, decidido a desposá-la, resolveu surpreendê-la com versos de sua autoria. Reconhecia que tinha mais talento para declamador do que para poeta, mas queria demonstrar-lhe todo o seu amor de uma forma original. Vestiu o seu melhor fato, comprou um ramo de rosas vermelhas e um cartão perfumado onde escreveu o soneto que lhe dedicava. Queria salvá-la da vida e torná-la sua legítima mulher. Estava cego de paixão. No quarto, como de costume, ela já o esperava a rebentar de desejo. Sorriu quando recebeu as flores mas não lhes deu grande importância. Nem sequer reparou no cartão perfumado. O que ela ansiava era pela poesia murmurada. Já desiludido mas com uma réstia de esperança ele leu-lhe o soneto escrito no cartão. A prostituta, pela primeira vez desde o dia que o conheceu, sentiu que aquele poema não era para ela.

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