sábado, 27 de setembro de 2008

CONTOS DE DESENCONTROS

TELAS DE AMOR
Dizem que é louca. Vagueia pela rua sempre a balbuciar palavras sem nexo. Parece que era pintora, e perdeu-se de amores por um homem casado. O desgosto da paixão impossível empurrou-a para um mundo que é só dela. À noite, deambula pela rua como um fantasma, à procura do amante. Quem a conheceu jovem diz que era muito atraente. Os seus longos cabelos brancos como a neve emolduram-lhe na perfeição o rosto dominado pelos olhos profundamente verdes. Ainda é possível vislumbrar nela a beleza perdida. Quando a vi pela primeira vez tive logo vontade de lhe conhecer os segredos. Senti que tínhamos muito em comum. Segui-a até casa e atrevi-me a bater à porta. Olhou para mim e não pareceu nada surpreendida, como se estivesse à minha espera. Sorrindo, deixou-me entrar e guiou-me pela casa até ao seu atelier de pintura. Fiquei imediatamente fascinada pela luminosidade dos seus quadros. Foi ali, no meio das tintas e dos pincéis que me segurou nas mãos e começou a contar a sua história. Como se fossemos velhas amigas. Estava serena quando começou a falar dele, do único homem que amou em toda a sua vida. Os seus olhos encheram-se de água ao recordar a primeira vez que fizeram amor, precisamente no chão daquele atelier. Era virgem e estava perdidamente apaixonada. Confessou-me que viverem um amor proibido durante vinte e quatro anos. Amavam-se sempre ali, até que a morte o levou. Desde então nunca mais pintou porque só pintava depois de fazerem amor. Disse-me para escolher um quadro à minha vontade. São telas de amor. Fiquei muito emocionada e impressionada com a sua história de amor verdadeiro e feliz. Abracei-a com muita força e desejei muito ser ela.

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