sexta-feira, 26 de setembro de 2008

CONTOS DE DESENCONTROS


BORBOLETA




Se não te tivesse conhecido naquela noite no bar, ainda estaria viva. Hipnotizada pelo teu olhar, rendi-me a ti, às tuas mãos grandes e habilidosas, as mesmas que mais tarde me haveriam de espancar sem dó. Amor à primeira vista. Deixei-me arrebatar pela paixão avassaladora e senti que contigo nascia para a vida. Naqueles primeiros tempos de namoro posso dizer que fui feliz. Mas a felicidade durou tão pouco. O romantismo da nossa relação foi irremediavelmente abalado por uma gravidez inesperada que precipitou o nosso casamento. Em pouco tempo, namorámos, casámos e tivemos um filho. À mesma velocidade alucinante, passaste num ápice de namorado meigo a marido violento. Jamais aceitaria os teus constantes maus-tratos e infidelidades se não receasse pela segurança do meu filho. Pelo meu filho aceitei calada que me humilhasses, tantas vezes à frente dele. Não sai de casa, não fugi de ti porque cedo percebi que não nos irias deixar em paz. Não sossegarias se não nos infernizasses a vida. Em nome do meu filho aguentei tudo. Sentia-me cada dia mais impotente perante as tuas frequentes demonstrações de poder. Estava só e desesperada. Sentia-me um caco, um lixo. Desiludida e carente, deixei-me seduzir por outro homem. Um homem que olhava para mim como mulher. Um homem que me tratava com respeito. Um homem que me oferecia carinho. Comecei a acreditar que seria possível escapar-te. Comecei a ter esperança. De dia para dia sentia-me mais confiante, mais forte. Esta minha transformação não passou despercebida a teus olhos e sobretudo não te agradou. Querias impedir-me de realizar a minha iminente metamorfose. Foi então que me seguiste até ao hotel onde nos apanhaste em flagrante, eu e o meu amante, nus na cama ainda ofegantes depois de nos termos amado pela primeira vez. Morri nas tuas mãos como uma borboleta apanhada na rede.

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