quinta-feira, 1 de maio de 2008

TRILOGIA "Sei que te amei" - Parte I - Reviver o amor

Revisito-te hoje: o teu rosto conserva-se belo e o teu sorriso aberto ainda é o mesmo. Os teus olhos continuam tristes. O teu corpo está nu, nu é como te lembro, despido de preconceitos.
Próximos ainda que distantes, dois jovens rebeldes e apaixonados. Acabámos de fazer amor. Cansados e mudos, lado a lado, abandonamos a magia vivida instantes antes.
A intensidade com que fizemos amor, como que adivinhando que era a primeira e a última vez.
Matámos o desejo. Talvez, por ser impensável repetir a perfeição dos olhares, dos gestos, das carícias, dos murmúrios, numa só palavra, do prazer. Por medo. Por amor. Por receio de sensações novas, que não sabíamos dominar. Por nos sentirmos expostos, desprotegidos. Não sei. Por tudo ou por nada. Recuámos. Fugimos um do outro. Pior ainda, fugimos de nós.
Não há nada mais violento do que fugir de nós próprios. Do que nos negarmos.
Superar essa violência atroz e infligida por nós e a nós mesmos, é missão quase impossível.
Mas o tempo vence qualquer batalha, por mais complexa e difícil.

Relembro os teus olhos tímidos. Foi o teu olhar frágil e envolvente que me seduziu naquela noite fria.
Ao transpôr a porta da sala de aula de teatro, jamais podia imaginar que a minha vida nunca mais voltaria a ser a mesma. Que eu nunca mais seria a mesma.
Quando os nossos olhares se encontraram, a sala ficou subitamente vazia. Só nós dois existíamos. De imediato desejei que desvendasses todos os meus mistérios. Inexplicavelmente. Desejei um beijo. Desejei ser tua. Assim, sem mais nem menos.
Que sensação desconcertante, principalmente para uma pessoa como eu: racional, segura, inabalável, que sabe sempre os porquês e controla todas as situações.
Em poucos segundos, o meu mundo foi posto em causa, desmoronou-se.
Senti-me indefesa, intimidada. Apeteceu-me correr, sem olhar para trás. Mas simultaneamente, senti uma atracção pelo abismo que representavas. E fiquei.
Perdida em pensamentos obscenos.
Como é possível sentir tudo isto, por um perfeito desconhecido? Contraria todas as leis, toda a lógica. Ultrapassa o limite do aceitável, a barreira do pudor. É pura loucura, demência. Perversidade.
Eu não sou assim. Eu não ajo assim. Eu não sinto estas coisas. Esta não sou eu.
No entanto, reconheço-me naquela jovem que tenta atrair a tua atenção. Sim, sou mesmo eu, que ao proferir palavras enigmáticas procuro despertar a tua curiosidade. Sou eu que tento motivar a descoberta. Provocar o desejo.
Mas foste tu que te aproximaste lentamente, enredado na teia que teci e na qual também eu fiquei presa.
Foste tu que tornaste mais reais, mais acessíveis todas as ilusões, todos os sonhos. Foste tu que tiveste a coragem de responder ao desafio. Foste tu que nos precipitaste no abismo. Mas também foste tu o primeiro a desistir.
Pensei inúmeras vezes em como seria a tua expressão a fazer amor e, mesmo depois de fazer amor. No sabor dos teus beijos, na destreza das tuas mãos a percorrer o meu corpo. No teu cheiro, no calor dos teus braços fortes, no ímpeto do teu desejo.
Pensei vezes sem conta em ti, a todas as horas do dia, em todos os lugares. É possível sonhar em qualquer lado, a qualquer momento, sem sequer se aperceberem que estamos a voar com o pensamento. É a nossa maior liberdade. O nosso maior pecado.
Não queria ser eu a dar o primeiro passo, para mais tarde não me censurar.
Ansiava, no entanto, que a iniciativa partisse de ti. Demorou, mas aconteceu. Finalmente, encheste-te de coragem e convidaste-me para sair. Ceámos à luz das velas. Ainda me lembro como se fosse hoje. Há coisas que não se esquece.
Estávamos divertidos, tínhamos tanta coisa para dizer um ao outro. As palavras atropelavam-se. Não havia espaço para o silêncio. O silêncio veio mais tarde.
Naquele noite tudo fez sentido, até a lua cheia.
Deixámo-nos levar pelo desejo. Tudo aconteceu tão naturalmente, que a espontaneidade com que desapertaste a minha blusa, não me surpreendeu. Nada me surpreendeu, a não ser a subtil harmonia do momento.
Naquele momento mágico mas fugaz, fomos um só.
Fui feliz, ali, contigo.
Revivo aquele momento, com a mesma nitidez de outrora, como se estivesse imóvel, fixo no espaço e no tempo. Recordações.

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