quinta-feira, 29 de maio de 2008

"Tarde Demais - Uma história de amor online em 24 capítulos"

Hoje Capítulo XXIII - É uma menina
Acordei meio atordoada. O Lourenço dorme tranquilo a meu lado. Desço para tomar o pequeno-almoço. A Luísa já se movimenta na cozinha atarefada. “Bom dia.” “Bom dia Drª. conseguiu dormir?” “Pouco. Estou cheia de fome” “Deixe-me adivinhar: banana frita…” “É isso mesmo Luísa.”
Quando estava grávida do Lourenço comia frequentemente uvas, pelos menos, nas primeiras semanas de gravidez, depois passaram-me os desejos. Será que desta vez também vai acontecer o mesmo?
“Bom dia.” “Bom dia Lourenço.” “Mãe, sonhei que estavas grávida ou é mesmo verdade?” “É verdade filho.” “É menino?” “Ainda não sei o sexo do bebé. Talvez se consiga saber na próxima ecografia.” “Quando é que fazes a próxima?” “Daqui a duas semanas.” “Preferias ter uma irmã ou um irmão?” “Um irmão, é claro!”
É engraçado, sinto o Lourenço fascinado com a ideia de ter um irmão. Receei eventuais ciúmes. “Posso contar ao Francisco?” “Para já não filho, peço-te para só contares depois da próxima ecografia.” “Porquê?” “Por precaução. As primeiras 12 semanas de gravidez são fundamentais para o desenvolvimento do feto, compreendes?” “Sim mãe, como quiseres. Mãe, o pai não gostou da novidade? Foi por isso que se zangaram ontem à noite?” “Lourenço, o teu pai ficou muito contente com a notícia. Não te quero ver preocupado com assuntos de adultos, um dia vais compreender. Agora termina os teus cereais”.
As duas semanas passaram a correr. A minha barriga está cada vez mais saliente. Hoje é dia de ecografia. O Lourenço pediu para me acompanhar e eu concordei. Vou buscá-lo à escola como sempre e depois seguimos juntos para o consultório.
A Joana almoçou comigo e já está ao corrente do sucedido. Não se conteve e deu uma enorme gargalhada. Aconselhou-me a perdoar o Paulo por achar natural que a dúvida surgisse, já que a minha aventura com o Jaime coincidiu com a nossa reaproximação. Tenho que lhe dar uma certa razão. Mas custou-me muito ouvir o Paulo, num momento mágico como aquele, questionar a paternidade. Desde então não falámos. Telefonou várias vezes mas recusei-me sempre a falar com ele. O Lourenço insistiu diversas vezes para eu dar uma hipótese ao pai, mas eu mantive-me inflexível. Até a Luísa intercedeu a favor do Paulo, sem sucesso.
Já no consultório, aguardo pacientemente pela minha vez. O Lourenço mostra-se irrequieto e não pára de se mexer na cadeira. “O que é que se passa filho?” “Nada mãe.” No momento em que chamam o meu nome para entrar, irrompe pela sala de espera o Paulo. “Peço desculpa pelo atraso.” “O que é que estás aqui a fazer?” “Como? O Lourenço deu-me o teu recado.” “Qual recado? Lourenço?” “Mãe, não te zangues comigo. É melhor entrarmos, já te chamaram duas vezes”.
E foi assim que assistimos os três à ecografia. Chorei de emoção ao ouvir a médica dizer “É uma menina”. Já sabia Lua.

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