quinta-feira, 22 de maio de 2008

"Tarde Demais - Uma história de amor online em 24 capítulos"

Hoje Capítulo XVI - Nós
Acordei abraçada a ti e imediatamente pensei: e agora? Nada disto estava planeado. Pura e simplesmente aconteceu. Vou sair sem fazer barulho para não te acordar. Prefiro contemplar-te a dormir serenamente.
De regresso a casa sou surpreendida pela Luísa “Bom dia Drª.” “Bom dia Luísa”. Sinto-me uma criança apanhada em falso. Sinto-me bem. Tomo um duche rápido, visto-me e desço para tomar o pequeno-almoço. O Lourenço já está a beber o leite e assim que me vê, pergunta: “Mãe, tu e o pai voltaram?” Não respondo. Nem eu própria sei a resposta. Um turbilhão de sentimentos e pensamentos. “Já estamos atrasados Lourenço”. Deixo-o na escola e sigo para o trabalho. Mais um dia de trabalho. Mas é como se não estivesse no escritório. O meu pensamento voa e sorrio ao recordar a noite passada.
O Paulo já me ligou diversas vezes mas não tive coragem para atender. Não sei como lidar com esta nova situação. O Jaime também já me ligou algumas vezes. Que confusão! Telefonei à Joana, a minha confidente e pedi-lhe para vir almoçar comigo.
A Joana nem quer acreditar no que ouviu. “Meu Deus, que grande complicação! Numa noite o Jaime e na noite seguinte o Paulo…” “Joana, por favor, preciso de ajuda” “E eu é que tenho a fama!” Ri-me com vontade. Só a Joana me faria rir num momento como este. Sinto-me numa encruzilhada. “O que é que eu faço?” A Joana, prática como sempre, dispara: “Despachas o Jaime e voltas para o Paulo”. Como se fosse assim tão simples. Voltar para o Paulo. Nunca o deixei de amar. Mas é preciso mais. Não é uma noite de amor, ainda que verdadeiramente mágica como a de ontem, que vai alterar tudo o que se passou. “O teu problema Ísis é que racionalizas demasiado as situações. Os afectos não se explicam, sentem-se e pronto. E tu, ainda que te recuses a confessar, amas o Paulo”. A Joana conhece-me muito bem e tem toda a razão, às vezes devia reflectir menos e amar mais, mas sou assim. Mais racional que emotiva. Muitas vezes sinto que devia ser menos exigente com os outros e comigo própria e ter a capacidade de transgredir sem ter de me justificar. Mas sou como sou e não é aos 40 anos que vou mudar, ou será que estou redondamente enganada? Mais uma vez me questiono, é tarde demais para mudar ou cedo demais para me acomodar? Eu e o Paulo, nós fazemos muito sentido juntos. Amamo-nos demasiado para ignorar esse sentimento. Mas estamos divorciados, e agora de repente vamos voltar a ser um casal, como me perguntou esta manhã o Lourenço? Será que é assim tão simples? Lá estou eu com mais dúvidas do que certezas…

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