quarta-feira, 7 de maio de 2008

"Tarde Demais - Uma história de amor online em 24 capítulos"

Um capítulo por dia, durante os próximos 24 dias.
Hoje Capítulo I - Como uma brisa

Começou devagarinho, como uma brisa no final de um dia quente de verão. Uma vontade de fugir de tudo sem olhar para trás.
Chamo-me Ísis e tenho quarenta anos. Sou casada, mãe de um menino irrequieto de dez anos, que revolucionou a minha vida ainda antes de nascer. Quando me lembro do dia em que soube que estava grávida, fiquei tão feliz, a flutuar. A responsabilidade, o encantamento de ser mãe, um turbilhão de emoções que me acompanharam ao longo de toda a gravidez. “É menino”. Lourenço. Vai chamar-se Lourenço. Que magia este momento.
“Drª. Ísis é o Dr. Paulo”. “Como? Ah sim, o telefone. Está? Não vens jantar, está bem.” Desligo apreensiva. Já é a segunda vez esta semana. Será que tem outra? Disparates.
“Luísa, pode retirar o prato do meu marido. Hoje janto só com o Lourenço”. Nem posso acreditar, o Lourenço já tem dez anos. “Vamos jantar?” “Sim, mãe”. Mãe. A ecoar na minha cabeça a primeira vez que o ouvi dizer mãe. Mãe. Como é que uma palavra tão pequena pode encerrar um significado tão grande. Maior do que o mundo. Mãe. Transformou a minha vida. Mãe. Recordo como se fosse hoje a sensação de força, de invencibilidade, que me trouxe aquele bebé tão pequenino. Senti-me tão protectora, tão doce, tão preenchida por um amor incondicional.
Porquê agora este vazio? Esta insatisfação. Só sei que quero mais. Mais amor?
Mastigo a carne sem atenção, a voar com o pensamento e o Lourenço a chamar-me. Mãe. Mãe. “Ah sim, diz filho?” “Estás zangada?” “Não filho, está tudo bem”.
Sim, está sempre tudo bem. Menos eu, claro. Sinto-me um objecto estranho, deslocado, que não encaixa perfeitamente em lado nenhum. Haverá pior sensação do que sentir-se só no meio de gente? Como naquele dia, na festa da Joana. A casa cheia de convidados, e eu a sentir-me tão sozinha. Ruído à minha volta. Assim que pude arranjei uma desculpa qualquer e vim-me embora. O Paulo não gostou de abandonar a festa a meio, mas não teve alternativa. “É sempre a mesma coisa. Insistes em vir e depois não queres ficar”. Desta vez até tinha razão. Saímos mais cedo do que o socialmente aconselhável. Quero lá saber do socialmente correcto, que importa o que os outros pensam. Acabam sempre por pensar mal de nós. Muitas vezes nem de si próprios gostam, quanto mais dos outros. Não se gosta do que não se compreende. E quando não se compreende, não se perde tempo, rejeita-se. No mundo não há espaço para os que se preocupam em se compreender e em compreender os outros.
Já é tarde e o Paulo que não chega. O Lourenço já dorme tranquilo no seu quarto azul como o mar. E eu, sentada em frente ao televisor, a fingir interesse, oiço as chaves na porta. Finalmente o Paulo. O meu marido, a minha paixão. O amor de uma vida. Como foi surpreendente o momento em que nos apaixonámos. Na praia a passear o Ruca. Foi então que o vi. Alto, bonito, olhos brilhantes mas tristes. Naquele instante senti: é o homem da minha vida. Amor à primeira vista? Que loucura. O Ruca, o meu fiel amigo despertou-lhe mais a atenção do que eu. O Paulo aproximou-se dele e fez-lhe uma festa com tanto carinho que senti ciúmes do raio do cão. Depois, olhou para mim e com um sorriso aberto perguntou “Como se chama?” “O cão é o Ruca. E apesar de não ter perguntado, eu sou a Ísis”. Riu-se com prazer e a partir daquele momento a minha vida nunca mais voltou a ser minha.

Sem comentários: