
A convite da ilustradora, Cristina Drago, tive o prazer de assistir à apresentação do livro de Maria Paula Marques, que decorreu no Bairro Alto (Galeria de Arte Matos Ferreira), e dou-vos a conhecer um poema do qual gostei particularmente:
Creio que foi
Creio que foi o acaso, primeiro
Seguido de distracção
Depois um girar de rostos
Um roçar de olhos
Creio que a seguir foi o reparar
Não tenho a certeza
E depois foi o sorriso
Nascido da surpresa
Ou talvez do embaraço
Creio que foi a voz
A aliciar, a chamar
Para dentro do som
Creio que foi o olhar a colar-se
A puxar, a atrair para o seu centro
Creio que foi o roçar da pele
Casual, desprevenido
Que arregalou a alma
Creio que depois foi o abraço
A vontade do abraço
A força do dar, o calor do sentir
E creio que foi o beijo
Suave, receoso, depositado nos lábios
Convicto, colado à boca
Ansioso a sorver o espírito
Creio que foram os corpos
Desconhecidos, tímidos
Desajeitados, aventureiros
Atrevidos, sabidos, apaixonados
A conhecerem-se, a prometerem-se
A comprometerem-se
Creio que foram as almas
Espantadas, desconfiadas
Sonhadoras, apreensivas
Duvidosas, convictas
Almas dormentes mas acordadas
Creio que foram as vidas
Distraídas e atentas
Entristecidas mas crentes
Vidas com sonhos vencidos mas lutados
Espíritos resignados mas batalhadores
Emoções adormecidas mas atentas
Creio que foi a confissão
Do amor nascente
O aceitar a vida que se nos queira dar
O ceder ao caminho que se queira
Cumprir em nós, por nós, connosco
De certeza
Creio que foram as promessas
Promessas juvenis de corpos serôdios
Promessas de amor eterno
Iguais a outras crenças anteriores
A outros amores, também eternos
Promessa de vida no meu
No teu coração
E creio que foi a certeza
A convicção de que era este o caminho
Creio que foi isso, creio
Afinal, que foi apenas
O Amor
Maria Paula Marques
in Poemas do Sentir (com o apoio do Instituto Nacional de Estatística)
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